Aprender a tocar um instrumento de sopro significa mecanicamente, aprender a dosar a quantidade de ar emitido a uma determinada velocidade.Assim, se tratarmos deste assunto do ponto de vista científico, a física nos ajudará a compreender o mecanismo de produção, propagação e desdobramento dos sons desde a sua epigênese.
Um som produzido, tendo-se como agente excitador ou fonte geradorao vento e como meio propagador ou amplificadorum tubo como uma câmara de ressonância, terá sua entoação alterada para o agudo na medida em que diminuímos o comprimento deste tubo, ou se aumentarmos proporcionalmente a velocidade da coluna de ar que o percorre. Se obtivermos o A440 (Lá 440) para um comprimento x, sua oitava acima terá o dobro destas vibrações (A880); o segundo harmônico será a nota Mi, uma quinta acima, com (440*1.5) uma vez e meia o número de vibrações da nota de partida; o terceiro harmônico será o próprio Lá duas oitavas acima do primeiro. Entenda melhor esta relação:
|
Nota |
N° Vibrações |
Relação 1: |
Correspondente |
|
Dó |
264 |
1, 000 |
1 |
|
Ré |
297 |
1, 125 |
9/8 |
|
Mi |
330 |
1, 250 |
5/4 |
|
Fá |
352 |
1, 333 |
4/3 |
|
Sol |
396 |
1, 500 |
3/2 |
|
Lá |
440 |
1, 667 |
5/3 |
|
Si |
495 |
1, 875 |
15/8 |
|
Dó |
528 |
2, 000 |
2 |
Assim: Lá= (n° vib. de Dó) *5/3
Ou seja, o Lá= 264*1.667
Então Lá= 440
Ocasionalmente, se aumentarmos o comprimento do tubo ou ainda, se aumentarmos o seu raio interno a entoação obtida será mais grave. Podemos notar então que os sons de uma escala temperada são obtidos a partir desta premissa. Daí serão determinante para o fluxo equilibrado da coluna de ar e para a afinação, o diâmetro e a localização de cada furo na extensão do tubo (isso se pensarmos numa flauta, num clarinete, num oboé, num saxofone, ou num fagote). Os instrumentos da família dos metais, trombones, trompetes, trompas e saxhorns dependem de forma mais literal dos harmônicos, pois o tubo é aberto apenas nas extremidades e as combinações entre os pistos é que determinarão o seu comprimento.
Todo instrumento de sopro parte do princípio de construção de uma forma tubular ou cônica; e devemos entender que o nosso resultado sonoro: volume, afinação, timbre e projeção, estão diretamente relacionados com o comportamento do fluxo de ar (volume e velocidade) dentro deste tubo (considerando-se plano, o seu corte interno). Quando sopramos nos instrumentos genericamente denominados “Piccolo”, sejam flautas ou trompetes, devemos observar a susceptível dificuldade na própria emissão do som, o que comprometerá evidentemente, a afinação; isto acontece por que nestes instrumentos o volume quantitativo de ar é pequeno se relacionado com um clarinete, por exemplo, mas deverá ser muito maior a velocidade ou a pressão de uma coluna constante, homogênea e ininterrupta de ar. Quando conseguimos emitir uma nota Dó_ numa determinada oitava, em qualquer instrumento_ a sua correspondente uma oitava acima terá duas vezes sua velocidade (o que denota o aumento da pressão exercida), no caso inverso, sua velocidade cairá pela metade e desta forma obteremos o Dó da oitava anterior (mais grave). A relação entre os diversos instrumentos de sopro baseia-se nesta premissa: quanto maior, mais grave; assim exige maior quantidade de ar e menor pressão. E quanto menor, mais agudo; necessita então de menor volume de ar com mais velocidade, mantendo-se sempre o fluxo estável.
Quando falo de pressãoestou também me referindo a outro ponto de equilíbrio; entre a força com a qual sopramos (o que implica na maior ou menor velocidade na passagem da coluna de ar) e o quanto apertamos a palheta contra a boquilha, ou o bocal contra nossos lábios. Ou seja, o som virá com a mesma proporção de qualidade da nossa_ tão necessária_ embocadura. Devemos então nos preocupar primeiro com a embocadura; resultado de horas de estudo de notas brancas, adaptando nossa musculatura oro mandibular aos bocais e boquilhas. Onde os objetivos são claramente, fortalecer os músculos da face, acondicionando-os a esta nova tarefa e estudar sua relação com o próprio instrumento; proporcionando um entendimento do que é necessário fazer para obter o resultado esperado. O que o fará descobrir pelo uso diário e constante, qual é a melhor posição para tocar, como emitir o sopro, e refinará seu controle do instrumento num todo.
Mas quais devem ser estes primeiros sons?
O poder de controle do aprendiz será maior, se “longe” das áreas extremas dos registros graves e agudos. Desta forma resta-lhes a região central da tessitura de cada instrumento.
SOL3 – LÁ3 – SI3 – DÓ4
(Clave de Sol – a partir da 2a. linha do pentagrama)
Este é o ponto onde seus esforços serão mais rapidamente recompensados e o ponto de partida para a formação do seu som. Expandindo-o comedidamente para a região grave por graus conjuntos descendentes:
DÓ4 SI LÁ SOL – SI LÁ SOL FÁ – LÁ SOL FÁ MI – SOL FÁ MI RÉ – FÁ MI RÉ DÓ3
Depois, aplique de forma análoga na ordem inversa a partir da nota com maior fluência adquirida.
Por exemplo:
Você consegue um som firme e afinado a partir da nota MI3? Então toque:
MI3 FÁ SOL – FÁ SOL LÁ – SOL LÁ SI – LÁ SI DÓ4
Outra orientação importante é o relato da forma como devemos soprar. O H. Klosè, famoso método para saxofone, em sua versão em Português e Espanhol, diz que cada nota tocada deve ser emitida a partir de um golpe de língua seco, como se pronunciássemos a sílaba TU. A veracidade ou a aplicabilidade desta informação justifica-se por atender aos imediatos anseios dos aprendizes. Mas a devida forma deve partir do princípio de que a coluna de ar é oriunda e deve ser sustentada pela função diafragmática.
Para conduzir com maior fluência o início destes estudos, sugiro que seus exercícios sejam preenchidos com notas longas, executadas em graus conjuntos e com sons ligados. Não se esquecendo de emitir sons firmes, sons reais (não utilize sub-tones), com intensidade moderadae se puder faça isto em frente a um espelho; isto ajudará a corrigir sua postura, assim você poderá monitorar sua respiração e ajustar a altura dos dedos em relação às chaves ou pistos de seu instrumento, deixando-os mais rentes aos mecanismos.
O som é o nosso único objetivo. A ele dedicamos uma vida de estudos práticos, teóricos, rítmicos. Portanto, tenha sempre como objetivo incondicional, a busca pela melhora incondicional do seu som.
por Alef Mansur
saxofonista especializado em sopro e Coordenador do Departamento de Sopro da PlayTech na Teodoro Sampaio.
alefmansur.teodoro@playtech.com.br
*Esta matéria também foi publicada na revista Sax&Metais N.20 Nov 2008.
Arquivado em: PlayTech
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