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Não dá pra negar, o ABC Pro HC 9 foi o maior festival underground do Brasil, sem dúvida alguma.
Com uma estrutura monstruosa, incluindo ai três palcos e várias bandas de renome do cenário nacional, o show decorreu sem grandes problemas ou surpresas, mantendo tudo em seu devido lugar.
Organização perfeita, e a prova de que é possível fazer algo grandioso no Brasil sem grandes apoios ou corporações, apenas trabalho árduo de um coletivo formado por alguns dos principais nomes da produção independente brasileira.
No melhor estilo Hunter Thompson, me enfiei em meio a horda emo e fui descobrindo o lugar.
Pra começar, eram três palcos, sendo o principal para The Used e NxZero, o segundo bem próximo a este, tanto fisicamente quanto de estrutura, e um terceiro, este que parecia um palco na quadra da sua escola, porém, com um som de qualidade e um status que seus shows no colégio não proporcionam. Ah, e ainda tinha uma danceteria indoor, perfeita para a pegação dos menores.
Os dois palcos secundários eram recheados de bandas de abertura, e a maioria delas, inexperientes demais para um evento deste porte, deixando muito a dever no quesito profissionalismo e principalmente, criatividade. Sim, a maioria seguia as mesmas duas linhas de som: ou era screamo ou parecia NxZero, fazendo até com que este se confundisse, sem saber qual banda estava tocando.
Os destaques nessa primeira bateria de bandas ficou para o Little Joe, que tem um som diferenciados, e a banda Mash, que faz um show energético e simples, sem afetações. A partir do momento que o dia foi caindo, as bandas ‘maiores’ foram iniciando suas apresentações. Indo de um palco pra outro e passando pelo camarim, via-se que o clima era dos melhores entre todos, e era até engraçado ver a quantidade de gente querendo ser importante num único lugar. Como ouvi de alguém por lá: “muito cacique pra pouco índio”. Qualquer sujeito(a) com uma pulsera vip, até mesmo de acompanhantes de banda de abertura, parecia que dava um status infinito a várias pessoas, criando assim uma patética competição de quem aparecia mais. Triste, e engraçado.
Quase final de tarde, céu ameaçando chuva, e no dito palco 2, os meninos cariocas do Darvin enfrentaram a terra da garoa com um show competente, bem acima do trabalho apresentado em seu disco de estúdio, provando ser uma banda que ao vivo, não deve em nada a outros nomes do pop-core carioca, ficando cabeça a cabeça com Forfun e Emoponto, este último que inclusive não tocou no festival, cancelado de última hora por motivo de imprevistos, segundo avisou o grupo. Continuando no palco 2 tivemos ainda o Envydust, ‘cada dia mais sujo e agressivo’, passeando entre a tênua linha do metal descarado e o screamo, fazendo um show brutal, sendo eles a primeira banda que realmente levantou a galera em peso.
O público era um caso a parte, indo desde o emuxo mais emuxo do mundo, até alguns curiosos, fãs ou não do The Used, mas que estavam lá pra conferir um festival do porte que foi o ABC pro HC.
A gritaria continuou no palco 2, desta vez com o Gloria, banda que fez o melhor show do dia. O endiabrado Mi e seus metaleiros malditos fizeram o pau comer entre a molecada, executando algumas das músicas de seus dois discos e faixas novas, num show curto, eficiente e bruto. A evolução do Gloria é clara, sempre profissional e com um pique invejavél.
Em time que está ganhando não se mexe, continuei no palco 2, e lá vinha os veteranos do Dance of Days. Sim, o magnetismo e a devoção criada em torno do DOD ainda está lá, mas percebe-se que uma nova leva de fãs está sendo formada para a banda, incluindo ai meninada bem nova que cantou hits do grupo paulista como “Se Essas Paredes Falassem…”, “Correção”, “A Valsa De Águas Vivas” e a nova “Com Você Não Vou Ter Medo”. A presença de palco do Dance, um dos trunfos maiores do grupo, não foi colocada em prática, parecia que aquele não era um dia muito inspirado para Nenê Altro, mas nada que diminuisse o poder da apresentação mêsssianica da banda.
Escurecia, o aglomerado em frente ao palco 1 já era grande, todos assistindo a montagem de palco do Nx Zero. No palco 3, o FISTT terminava sua apresentação, fechando a programação daquele stage, tocando clássicos do cancioneiro hardcore 90′s, além de um cover dos finados Street Bulldogs, e mostrando que o punk rock/hardcore estava bem representado no festival.
No cantinho do palco principal, desde a tarde, o baterista do The Used, Dan Whitesides, passeava, trocava idéias e atendia aos fãs, mostrando uma simpatia que não se repetiria igualmente mais tarde.
No palco 2, o Granada, grande hype da cena independente comandado pelo simpático midas Yuri Nishida, iniciava seu show. O conjunto não precisa nem do título de ‘next big thing’, pois eles já são o ‘big thing’ da vez, talvez o show mais esperado entre os independentes da noite. Yuri tem o público na mão, banda redonda, perfeita para as massas, tudo na mais perfeita ordem, e as músicas de seu disco debut sendo bradada pela molecada fotolog.
Vocês sabe, se o Nx é o que é hoje, boa parte da culpa disso é de Yuri, que compôs vários hits do começo da banda, e não seria nada injusto ou surpreso se o Granada chegasse a desbancar o NxZero se caísse numa major. Grande apresentação, encerrando os trabalhos no palco secundário. No ‘main stage’ a coisa apertou, todos foram lá conferir as duas últimas bandas do dia: Nx Zero e The Used.
O Nx nessa noite veio ‘desfalcado’ de seu baterista Daniel, tendo em seu lugar o pródigo Pindé, baterista do Sugar Kane, e o ‘convidado’ não fez feio, substituindo perfeitamente o baterista original do grupo.
O show do Nx transcendeu, não é um show de hardcore, emo, coisa nenhuma dessas, é um grande show de pop-rock, tudo perfeito para as massas, tudo bem ensaiado e pensado, armados ainda de um set-list com alguns sucessos de rádio/TV que dividiram o público. Se por um lado havia histeria de meninas na puberdade, outros faziam questão de hostilizar a banda com garrafas e copos plásticos sendo atirados ao palco. Desrespeitos a parte, a banda fez sua parte, recebeu seu caché e mostrou quem é que manda no rock adolescente nacional.
Enquanto o Nx tocava, chegaram os caras do The Used, cheios de pompa e circunstância, fazendo com que isolassem o caminho por onde a banda passaria. Detalhe, o tal caminho tinha “apenas” pessoas de bandas que tocaram no show e os ditos “Vips”. A banda correu pro seu camarim e se trancou por lá.
Lembram da promoção “conheça o The Used” do Zona Punk? Então, em certo momento eles liberaram que algumas pessoas fossem falar com eles, e assim os ganhadores da promo e mais alguns “sortudos” que perambulavam por ali subiram ao camarim da banda, umas 15 pessoas, e pelo que relataram foram bem recebidos, mas tudo profissional, com timing.
Fim do show do Nx, Di Ferrero e seu segurança sairam logo do local, e os outros músicos sumiram (ao menos de minha visão), com excessão do Gê, que ficou um pouco por ali conversando com os velhos amigos do underground. Nesta altura do campeonato, o camarim estava uma fervelãndia, e lá fora, a disneylândia pegava fogo esperando o grupo americano.
Palco montado, e lá vai o The Used e seus bodyguards para o palco. Histeria e comoção geral, e a banda fez sua parte, sem decepcionar. Show profissionalíssimo, tão profissional que, pelo que já li por ai, foi quase idêntico a maioria das apresentações desta tour.
O set-list também não variou muito de outros shows da banda, abrindo com “Bird & Worm” e tocando músicas como “Take It Away” e “All That I’ve Got”. Serviço feito, público em extase, e a banda corre de volta pro camarim. Festinha pós-show? Comemoração? Que nada. A banda ficou trancada no camarim por horas. Quando não havia mais ninguém no local, a porta foi aberta. Algumas groupies passeavam pelo local, sem muito sucesso inicialmente. Enquanto isso, duas meninas, bem novinhas, esperavam ansiosas na saida do camarim para uma foto ou autógrafo, muito tempo depois de que tudo acabou. Tentei ajuda-las, levei-as ao camarim. Um produtor da banda deu xilique, não queria ninguém ali. As meninas resignadas, voltaram a seu posto original. Por volta de 1 hora e meia após o término do festival, o The Used sai do camarim, e vai direto pra van. Pelo que vi, atenderam os autógrafos das duas meninas, e seguiram direto para o hotel, demonstrando que não são assim as pessoas mais descontraídas ou comunicativas do mundo. Foram, e deixaram marcas em todos, fizeram seu trabalho e saíram com os bolsos (bem) cheios.
Olhar toda a estrutura do ABC Pro HC, lá pelas 2 da manhã, tudo vazio e imundo, deu um certo orgulho, em ver como nossa “cena” é gigantesca e forte. Por outro lado, triste pensar que a maioria das pessoas ali estavam para prestigiar uma banda que, pra eles, tudo feito ali eram apenas mais um jeito de faturar (algo em torno de) 45 mil dólares.
Que o Abc Pro Emo, continue assim, fazendo a alegria do público e mostrando que organização e produção bem feita no independente é algo possível e cabível.
Parabéns a todos, bandas que tocaram desde o meio-dia, e ao público, que fechou o ano com esta grande festa.
Resenha feita pelo Zona Punk

